Rumo a Ruitellan
Diferentemente de 2001, resolvi que não subiria o Cebreiro partindo de Villafranca. Como ainda tinha dias sobrando, uma etapa de quase 19km até Ruitellán seria o suficiente. Chegaria cedo e conseguiria curtir o albergue que me fora muitíssimo bem recomendado por duas amigas: Marcia e Ana Luzia.
O dia ainda não tinha raiado quando os demais peregrinos começaram a levantar. Fazia bastante frio. Sabia que teria que me vestir com quase todas as roupas que tinha levado. O famoso "efeito cebola". Confesso que foi difícil levantar da cama depois de tanto vinho na noite anterior. Ainda meio grogue, fui vestindo a camiseta, a blusa segunda pele, o fleece e o casaco corta-vento. Nas pernas, uma calça era o bastante pra mim. Tentei usar a calça térmica num dia de frio e passei muito calor e tive um trabalhão para trocar de roupa no meio da trilha. Peregrina escolada é outra coisa.
Devidamente vestida, com a mochila arrumada, desci para o café da manhã. Thayse estava com sua família, dividindo algumas coisas que tinham comprado no dia anterior. Tomei café, comi bananas e pão. Disse a eles que queria parar em Ruitellan e eles concordaram que seria muito bom quebrar a etapa ao meio e dormir antes da subida do Cebreiro. Conversamos um pouco e nos aprontamos para seguir nossos caminhos.
Saímos do albergue juntos. Um grupo grande. Acendi a lanterna, não porque estava demasiado escuro, mas para justificar o peso extra que eu havia levado e também para gastar bateria, pois não a tinha usado ainda. Eu estava muito feliz. Lembrei muito do meu Caminho em 2001. Era um das etapas que eu ainda tinha muito clara na memória. Porém, conforme fomos caminhando, apesar de ser tudo muito familiar, me parecia também bastante diferente. Começando pela cidade que estava repleta de bares, albergues, pousadas e hotéis. Depois, não lembrava da ponte sobre o rio Burbia na saída da parte urbana de Villafranca e, por fim, eu não tinha nenhuma recordação da serrinha que estávamos prestes a subir, beirando a estradinha.
Conforme fomos avançando, o grupo se dispersou. Cada um no seu caminho. Cada um no seu ritmo. Segui caminhando com a Thayse. No início, ainda em silêncio, percebendo a paisagem que ia se revelando conforme o sol chegava com seus primeiros raios de luz. Aos, poucos, a neblina deu lugar às montanhas, às árvores e o céu rosa foi se transformando em azul, num tom que só se vê lá no Caminho. Pode ser que seja a mesma cor do que vemos aqui no Brasil, mas lá é diferente. Lá é visto com a alma! Nossa alma que, aquela altura do Caminho, já estava extasiada de tanta energia boa, de tantas novas amizades, tantas paisagens belíssimas e experiências enriquecedoras. É um azul que não estamos acostumados a ver no nosso dia a dia corrido, onde mal temos tempo para respirar. Um azul genuíno, sem a poluição, sem a nossa pressa, sem admirar as coisas belas da vida por estar distorcida pela rotina.Realmente é um dos dias mais bonitos do Caminho. Mesmo beirando a estradinha e, depois, o caminho era beirando uma rodovia, aprendi uma lição das mais preciosas! Descobri que, ao olhar para o outro lado, havia um rio. O rio Valcarce. E o caminho era entre a rodovia e o rio Valcarce. Me bastou olhar para o outro lado, ver por outro angulo, imaginar de outra forma e o cenário mudou! Sempre há um lado positivo em todos os cenários! E sempre há uma forma de diferente e boa vencer uma situação difícil. Basta mudar o jeito de encarar os fatos. Mudar o jeito de encarar a vida! E pulamos, Thayse e eu, para aquele caminho do meio, para sentir o estalar das folhas secas no chão de terra, para sentir o cheiro do bosque úmido, para ver o colorido das árvores, para ouvir o barulhinho das águas e para sentir o coração se encher de alegria!
Mais à frente, logo depois de atravessar a rodovia e entrar no pueblo de Pereje, paramos para um café. Era uma casa pequena, paredes de pedra, mesas, cadeiras e balcão de madeira rústica, como vemos nos cenários de filmes da idade média. Thayse me contou que da outra vez que fez o Caminho com seus pais, tinham pernoitado naquele pueblo. E me disse para olhar com atenção para as paredes do bar. Estavam lotadas de moedinhas! Cada peregrino que passava por ali, depositava uma moedinha em uma frestinha entre uma pedra e outra. E faziam pedidos. Procurei muito até achar a minha brecha! Mas consegui! E o meu pedido não poderia ser outro: voltar e voltar e voltar e ter saúde e ter disposição e poder levar meus filhos e voltar e voltar e voltar ao Caminho por muitas e muitas e infinitas vezes, enquanto eu puder, enquanto eu quiser e enquanto isso me inspirar!
E os meus amigos foram chegando, sentando, tomando seus cafés e buscando suas frestas e fazendo seus pedidos. Estávamos muito felizes com aquele dia. Todos muito inspirados! Todos leves! Todos curados de seus males, de seus medos e de seus receios. Era a vida sendo vivida em sua plenitude! Vivendo o dia como deve ser vivido: como ÚNICO! Nenhum dia será mais como aquele e nenhum dia será como outro. E devemos viver da forma como aprendi ali, caminhando entre a estrada e o rio: olhando pro lado bom!
Passando Pereje, seguimos juntos, depois nos separamos. Me vi sozinha por uns momentos e, em outro, colocando a conversa em dia com alguns peregrinos que iam passando por mim. Conhecendo gente nova, gente que pensa diferente e conhecendo a mim mesma. Eu era diferente daquela Tilara que havia passado por ali quase 15 anos antes. Já não era mais aquela menina, mas ela me acompanhava naquele dia. Por isso, me peguei cantando, dançando e fazendo coisas que muitos chamariam de mico! Mas, nunca me importei com isso. Sou artista. Levo comigo a alegria de ser várias e, ao mesmo tempo, uma só. E me permito ser ridícula e não me sinto culpada por isso. Danço mesmo, canto mesmo e vou "caminhando e cantando e seguindo a canção"....e o coração!
E, Vega de Valcarce, me permiti uma parada na Panaderia Cerezales. Era uma casa muito florida e o aroma do pão era muito convidativo. Tirei a mochila, as botas, as meias e sentei-me nas mesinhas coloridas, ao sol, vendo o degelar da grama. Resolvi ligar para os meus filhos, mostrar para eles como estava lindo o dia e como aquela paisagem era inspiradora. E como foi bom poder fazer isso com a tecnologia! Não só ouvir suas vozes, mas também vê-los e poder compartilhar meu Caminho e minhas vivências. Às vezes, eles nem ligavam e falavam um "Tá bom mãe", meio de saco cheio. Outras vezes, se interessavam pelo lugar e perguntavam tudo, me pediam para mostrar mais coisas e me acompanhavam por vários minutos, vendo o mesmo que eu. Fazendo o Caminho comigo! Isso me motivou muito a ensiná-los a caminhar mais, fazer trilhas, mostrar a beleza da natureza. Incutir neles a prática das viagens introspectivas, viagem mochilão, viagens de coração aberto para conhecer o mundo como ele é de verdade. Viver a natureza, a beleza da vida aliada ao auto-conhecimento, saber ouvir seu corpo, saber como usá-lo, entender nosso propósito nesta vida. Acho que essa é a grande magia do Caminho! Pena que a tecnologia me permitiu naquele momento ouvir apenas o "Tá bom mãe! Mas o sorriso não saiu do meu rosto. Nem a alegria! E, ainda bem, que a espontaneidade deles continuava lá!
E, por fim, depois daquele dia lindo, cheguei em Ruitellan. Era o destino que eu havia traçado para aquele dia: caminhar pouco, curtir tudo e descansar em um lugar típico do Caminho: Albergue Pequeno Potala. Lugar simples, acolhedor e eu saberia mais tarde que me remeteria ao espírito peregrino que encontrei em 2001 e andava perdido naqueles vários lugares novos que surgiram nesses quase 15 anos entre minhas peregrinações.
As beliches, a sala comum, o banheiro, o tanque de lavar roupas com aquela agua gelada, o varal cheio de meias e roupas de todos os tipos de tamanhos, as botas enfileiradas na entrada e a recepção de Luiz e Carlos. Cada um com seu jeito: um mais reservado, outro bem extrovertido. Ambos amáveis! Jantar maravilhoso! Pão, vinho, massas e muito carinho em tudo que eles faziam. Às 10 da noite, se retiraram para descansar e nos aconselharam fazer o mesmo. Eu não me sentia cansada, apenas deitei-me para dar continuidade aquele sonho. E rever as flores, os bosques, os pueblos, os momentos e os aprendizados do dia.
Até a próxima!






6 comentários:
linda, sempre!
Obrigada JU!!!
Puxa, dá uma vontade de fazer esse Caminho que vocês fizeram......... continue escrevendo, estamos aguardando ansiosamente!
Artur
Obrigada Juuuuu
Esse caminho é inspirador!!! Faça mesmo! Muitas e muitas vezes! Tem um pessoal que conheci, um pessoal da China muito amoroso e tb engraçado. Vc deveria fazer com eles! 😉
Oi Ti, estou adorando seus relatos.
Lembro bem desse dia de caminhada, mas lendo seu texto, as lembranças e a saudade ficam mais fortes.
Lembro especialmente do pequeno vilarejo (pueblito) onde fica o albergue, do bar onde passamos a tarde ¨filando¨o wi-fi (uifi, como eles dizem), degustando azeitonas e trocando amabilidades com a proprietária, bem como lembro muito bem do albergue em si.
Confesso que este albergue em particular foi muito importante para compreendermos o momento pelo qual passa o Caminho e as peregrinações de forma geral.
Inicialmente ficamos surpreendidos pela quantidade de determinações às quais os peregrinos têm que se submeter para se hospedar ali. Pode isso, não pode aquilo, não faça isso, coloque isto naquele lugar, etc... etc... etc...
As determinações são transmitidas verbalmente pelos dois hospitaleiros e também por diversos cartazes colocados nas paredes.
Um albergue dos mais simples, despojado, num vilarejo que se resume a um pequeno punhado de casas e um monte de determinações.
O contato inicial com os hospitaleiros, em parte por conta de tantas determinações, em parte pelo cansaço do trecho, não chega a ser agradável; ouso mesmo dizer que é meio antipático inicialmente. E você sabe, conosco havia pelo menos um peregrino pouco afeito a regramentos muito rígidos rsrsrsrs. Ainda bem que não tivemos problemas com ele rsrsrsrs.
Mais tarde, banho tomado, corpo mais descansado, com tempo para conversar, as coisas vão mudam. Os próprios hospitaleiros, ainda que mantendo a "rigidez" do regulamento, foram muito simpáticos, uns doces....na medida em que os peregrinos iam chegando para o jantar.
O jantar, ah o jantar! Revelador, desmistificador, convenceu-nos de quê, ao final de contas, os hospitaleiros têm lá suas razões. A mesa, grande, era composta por nós, brasileiros, cerca de dez peregrinos, mais uma japonesa, um ciclista italiano, uma finlandesa e uma norte-americana, se não me engano.
Duas opções no cardápio: salada e macarrão a carbonara e ao pesto. E pão.
Tudo uma delícia. Um dos hospitaleiros, querendo agradar, preparou um prato maior que os outros para o ciclista italiano, propondo quase que um ¨desafio culinário¨, em busca de aprovação.
Durante o jantar nossa pequena ONU revelou as vontades de cada um, fruto de hábitos e costumes arraigados, o que, por si só, já justificaria em parte o rigor do regulamento rsrsrsrs.
Um quer isto, outro quer aquilo, outro ainda tentou entrar na parte privada do albergue (a residência dos hospitaleiros), apesar dos avisos de advertência e proibição.
Porém, a ¨joia da coroa¨ estava reservada para o nosso ciclista italiano que mal tocou em seu prato de macarrão, causando um grande mal-estar entre todos.
Apesar de termos reforçado os elogios, ficou evidente a mágoa do hospitaleiro cozinheiro pelo ocorrido com seu ¨desafio culinário”: exatamente quando foi mais simpático, quando demonstrou mais atenção.
No dia seguinte, lembro, caminhamos um bom tempo analisando e comentando a situação, e chegamos à conclusão de que a vida de hospitaleiro não é fácil. São muitos peregrinos, todos os dias, com hábitos muito diferentes, com ideias e concepções diferentes, cada um em seu momento, cada um com suas ¨verdades¨ e necessidades, que passam pelo albergue ¨de passagem¨, sem conferir protagonismo a quem os recepciona e, algumas vezes, sem nem mesmo dar o devido respeito a quem muito o merece.
Sem esses bravos hospitaleiros, ainda que prestem serviços remunerados, não haveria possibilidade de percorrer o Caminho, os Caminhos; não haveria sequer caminho a ser percorrido.
Foi um grande dia, para muitas lições, sem dúvida.
E sua presença, a sua alegria e companhia foram indispensáveis e valorosos para o sucesso da nossa caminhada, Ti.
Obrigada por reavivar as lembranças e sentimentos; sigo com você, adorando seus relatos.... que venha as próximas.
Beijos,
Camilla
Postar um comentário