Da janela do avião, avistei o Cristo Redentor, emocionada. Estava de volta em casa! Era o único lugar, fora o Caminho de Santiago, que me deixava feliz naquele momento. Imaginava que em poucos minutos encontraria minha família e meus amigos me esperando no saguão do aeroporto, com faixas de parabenização, banda (daquelas de cidade do interior, tocando marchinhas de carnaval), muita festa e todos ávidos para ouvir minhas aventuras. Não havia ninguém. Depois de um mês longe de casa, cansada, louca por um ombro amigo, encontrei um mundo vazio à minha espera. A decepção tomou conta de mim e senti um grande medo deste conhecido mundo desconhecido. Quando comecei a pensar porquê não havia ninguém me esperando, me dei conta de que eu mesma havia feito confusão com o horário de chegada do meu vôo.
Coloquei a mochila nas costas e segui até a lanchonete mais próxima para matar a saudade do nosso delicioso cafézinho. No trajeto até praça de alimentação, percebi que algumas pessoas olhavam-me espantadas. E com razão! Porque uma mulher tão magrinha e aparentemente fraca continuava carregando uma enorme mochila? Porque não colocá-la em um carrinho de bagagens? A todos que me ofereciam um carrinho eu respondia com um sorriso maroto nos lábios:
— “Obrigada, mas aqui dentro está toda minha vida e eu tenho que carregá-la sozinha!”
Claro que ninguém entendi nada! Andei durante algumas horas dentro do aeroporto, sem saber o que fazer. Decidi que seria melhor telefonar para casa. Para minha surpresa, estavam todos tomando café e sairíam em caravana para me buscar. Como eu pude estragar a minha própria festa de recepção? Ficaram todos surpresos e um pouco decepcionados também. O melhor então, seria pegar um táxi e chegar a tempo de acompanhá-los no desjejum. Foi o que fiz.
A vida é mesmo engraçada. Ao chegar no estacionamento reservado aos táxis, um dos motoristas veio em minha direção.
— “Peregrina de Santiago?” – perguntou-me.
— “Sim, como você sabe?” – respondi.
— “Pelo sorriso nos olhos e a mochila nas costas.” – ele disse.
Ele também havia feito o Caminho e ficou tão feliz ao ver-me, que fez questão de levar-me para casa “desde que eu enchesse seu coração de alegria com as histórias do Caminho”. Nunca mais o vi, mas o guardarei sempre em meu coração.
O reencontro com a família foi estranho. Eram as pessoas que eu mais amava e, ao mesmo tempo, pareciam distantes e desconhecidas para mim. Entrar em casa, desfazer a mochila e retomar a rotina pareceram-me sem sentido. As reuniões da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, que poderiam, de alguma forma, remeter-me de volta àqueles momentos felizes, não me satisfaziam plenamente. Os meses que se seguiram, foram muito difíceis. Tive que encarar o término do meu namoro, os trabalhos eram escassos, os problemas continuavam os mesmos e eu não sabia como agir. Estava sempre angustiada, à procura das setas amarelas, que um dia indicaram-me o rumo certo.
Arrisquei uma outra viagem, desta vez a trabalho, buscando sempre o espírito peregrino e aventureiro de antes. Até o nome da cidade que escolhi para passar uns tempos era o mesmo: Santiago. Passei um mês no Chile, tentando encontrar o Caminho. Não deu certo! Pensei que o Encontro Internacional de Peregrinos, programado para novembro, no Brasil, fosse a chance de revivê-lo. Não pensei duas vezes em deixar o Chile e voltar para o Rio de Janeiro, antes mesmo da hora prevista. Novamente enganei-me! Nem mesmo a presença de Jesus Jato e sua esposa, Acácio e outros hospitaleiros em minha casa, remetiam-me de volta ao Caminho de Santiago. Foi uma grande agonia! Tudo era totalmente diferente do que eu sonhara encontrar. Definitivamente, nada mais seria igual na minha vida! Pensei estar louca, mas no fundo, eu estava perdida.
Coloquei a mochila nas costas e segui até a lanchonete mais próxima para matar a saudade do nosso delicioso cafézinho. No trajeto até praça de alimentação, percebi que algumas pessoas olhavam-me espantadas. E com razão! Porque uma mulher tão magrinha e aparentemente fraca continuava carregando uma enorme mochila? Porque não colocá-la em um carrinho de bagagens? A todos que me ofereciam um carrinho eu respondia com um sorriso maroto nos lábios:
— “Obrigada, mas aqui dentro está toda minha vida e eu tenho que carregá-la sozinha!”
Claro que ninguém entendi nada! Andei durante algumas horas dentro do aeroporto, sem saber o que fazer. Decidi que seria melhor telefonar para casa. Para minha surpresa, estavam todos tomando café e sairíam em caravana para me buscar. Como eu pude estragar a minha própria festa de recepção? Ficaram todos surpresos e um pouco decepcionados também. O melhor então, seria pegar um táxi e chegar a tempo de acompanhá-los no desjejum. Foi o que fiz.
A vida é mesmo engraçada. Ao chegar no estacionamento reservado aos táxis, um dos motoristas veio em minha direção.
— “Peregrina de Santiago?” – perguntou-me.
— “Sim, como você sabe?” – respondi.
— “Pelo sorriso nos olhos e a mochila nas costas.” – ele disse.
Ele também havia feito o Caminho e ficou tão feliz ao ver-me, que fez questão de levar-me para casa “desde que eu enchesse seu coração de alegria com as histórias do Caminho”. Nunca mais o vi, mas o guardarei sempre em meu coração.
O reencontro com a família foi estranho. Eram as pessoas que eu mais amava e, ao mesmo tempo, pareciam distantes e desconhecidas para mim. Entrar em casa, desfazer a mochila e retomar a rotina pareceram-me sem sentido. As reuniões da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, que poderiam, de alguma forma, remeter-me de volta àqueles momentos felizes, não me satisfaziam plenamente. Os meses que se seguiram, foram muito difíceis. Tive que encarar o término do meu namoro, os trabalhos eram escassos, os problemas continuavam os mesmos e eu não sabia como agir. Estava sempre angustiada, à procura das setas amarelas, que um dia indicaram-me o rumo certo.
Arrisquei uma outra viagem, desta vez a trabalho, buscando sempre o espírito peregrino e aventureiro de antes. Até o nome da cidade que escolhi para passar uns tempos era o mesmo: Santiago. Passei um mês no Chile, tentando encontrar o Caminho. Não deu certo! Pensei que o Encontro Internacional de Peregrinos, programado para novembro, no Brasil, fosse a chance de revivê-lo. Não pensei duas vezes em deixar o Chile e voltar para o Rio de Janeiro, antes mesmo da hora prevista. Novamente enganei-me! Nem mesmo a presença de Jesus Jato e sua esposa, Acácio e outros hospitaleiros em minha casa, remetiam-me de volta ao Caminho de Santiago. Foi uma grande agonia! Tudo era totalmente diferente do que eu sonhara encontrar. Definitivamente, nada mais seria igual na minha vida! Pensei estar louca, mas no fundo, eu estava perdida.

Ainda hoje, sigo em busca do meu Caminho.
Quando sinto-me perdida, deixo que as setas amarelas da intuição me mostrem o rumo certo;
Quando chega o cansaço, paro nos bares da alma e tomo um cafézinho;
Quando o desânimo toma conta, eu abro a mochila da fé e sigo em frente;
Quando o corpo padece, eu me apoio no cajado dos anjos e me levanto;
Quando surge a geada repentina, eu uso a capa de chuva da experiência e protejo-me;
Quando a chuva passa, eu abro os olhos do coração para apreciar o arco-íris;
Quando surge um amigo, eu abro um bom vinho!
Quando a vida parece não mais fazer sentido, eu lembro que eu e o Caminho nos tornamos um só.
Eu sou o Caminho e o Caminho sou eu.
2 comentários:
Interessante! Essa humanidade é mesmo parecidíssima! Não te conheço pessoamente, só vejo suas msgs no Caminho do SOl. As vezes leio seu blog como uma inspiração para percorrer Santiago , mas senti a mesma sensação ao retornar do Caminho so Sol. Procurando as setas (tatuei uma no calcanhar...) para tentar enxergar o caminho a percorrer.. Você é do RJ? Vamos combinar uma caminhadinha por aqui? Com carinho Marianne
Querida Tilara,
Nunca comentei com ninguem o que vou te dizer, mas senti a mesma agonia que voce sentiu.
O peito angustiado. Falta da energia que só o caminho nos dá. É dificil a volta. Voltar para um mundo que nao mudou enquanto o caminho nos transformou muito.
O choque é grande e só a fé nos conforta.
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